Ainda há pouco, descascando e cortando as batatas para o feijão da janta (sim, eu faço feijão com batata, batata-doce, moranga, cenoura e outras verduras/legumes, além da carne, claro – se você nunca comeu um feijão assim, não sabe o que está perdendo), continuando: ainda há pouco, descascando e cortando as batatas para o feijão da janta, fiquei pensando: como é que pode, alguém não saber cozinhar?
Pior ainda, como é que pode uma mulher não saber cozinhar? Já cansei de ouvir “Não sei nem fritar um ovo”, dito com um certo orgulho; como se essa frase fosse uma declaração de independência, de feminismo, de liberação.
Balela. Mulher de verdade sabe cozinhar.
Pra que você entenda o porquê da minha convicção, e possa ver que não se trata de um pensamento machista, uma explicação se faz necessária. Assim como acredito que as mulheres são diferentes dos homens, e dou graças à Deusa por isso, acredito que a mulher é, em essência, a nutridora da humanidade.
A mulher é a fonte onde toda a existência se nutre. É a mulher, com seu amor, sua doçura, sua capacidade criadora, que alimenta a existência, a Vida. A mulher cria e nutre, o homem constrói e protege.
Na cozinha, o conceito esotérico e espiritual de nutrição – alimentar a alma, o coração, o espírito – se une ao conceito físico e biológico – alimentar o corpo. Se você não entende isso, pense na sopa de frango que sua mãe costumava fazer quando você era criança: a cura para todos os males, desde a gripe até problemas de estômago. Lembra de como você se sentia feliz, protegido, cuidado e em segurança, só por causa dessa sopa?
Essa é a grande magia da cozinha: uma simples sopa de frango pode ser um prato cheio de amor e carinho.
Uma mulher que não sabe cozinhar, está impossibilitada de exercer essa função primordial do “ser mulher”. Claro que ela pode nutrir os seus próximos de outras formas, através das palavras, dos gestos,do cuidado do lar. Mas o cozinhar sempre será uma função faltante, um mundo de possibilidades negado e inexplorado. Não há substituição possível.
Cozinhar requer um certo esforço, uma certa disposição. Isso também faz parte do que torna o cozinhar especial; a disposição de alguém em dispender tempo, esforço e atenção na preparação de um prato. Vai dizer que um pão caseiro saído do forno não é um gesto de amor?
Eu tenho uma relação especial com a comida e o ato de cozinhar. Cozinho quase todos os dias, e tudo faço com amor; sempre pensando na pessoa que vai comer, imaginando a cara dela (ou dele, geralmente cozinho para mim e meu marido) quando vir o prato, a satisfação e o contentamento que essa pessoa vai sentir ao desfrutar desse prato. E isso me faz feliz.
O único problema é que, quando estou estressada, muito cansada ou com um mau humor do cão, a comida sofre. O arroz queima, o molho fica muito salgado, me corto um dedo; desastres vários se “assucedem”. E se estou muito brava… é certo que vou queimar as mãos. Juro.
Nesses dias, melhor puxar um congelado (que eu mesma preparei dias antes) do freezer, antes que arriscar. Mas, na maioria dos dias, cozinhar é um prazer. E uma diversão; exercitar o lado bruxa, remexendo o caldeirão, misturando ingredientes que misteriosamente se transformam em cheiros, cores e sabores diferentes.
O aroma escapa das panelas e se espalha pela casa… Magia que nos diz com certeza: estamos em casa, este é o nosso lar. Como não sentir que estamos em casa, se chegamos da rua, gelados até os ossos, para nos encontrarmos com uma sopa espessa e fumegante, ou um bom prato de feijão bem quente?
E o que dizer das maravilhas que saem do forno? Pão caseiro, bolo de chocolate, até mesmo uma humilde torta de liquidificador… Quem não sente felicidade na alma ao ver uma bela lasanha recém saída do forno, o queijo e o molho das bordas ainda borbulhando? Quem não se sente especial e amado, ao receber nas mãos uma bandeja onde descansa um prato de sopa de frango, amorosamente preparada para curar a gripe que nos deixou de cama?
Tudo isso é mágico; tudo isso é comida não só para o corpo, mas para a alma.
Por tudo isso, é que eu digo que Mulher de verdade sabe cozinhar. Porque cozinhar é magia, é bruxaria, é arte, é um dos caminhos para a felicidade. Cozinhar é um gesto de Amor.
Eu gostaria de continuar, mas você vai ter que me dar licença: ainda tenho que terminar de preparar o feijão!
Outro dia falo mais sobre isso. Agora, se você quer dar uma olhada numas receitas mágicas, maravilhosas e fáceis, escritas por uma Mulher com M maiúsculo, que entende tudo sobre a conexão entre comida e alma, entre cozinheira e bruxa, entre panelas e caldeirões, vá visitar a minha querida Zel.
Vá logo; ainda dá tempo de preparar uma sopa de abóbora “very especial” pra janta de hoje.
ASS:ANA SALES


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